Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Existe um momento mal definido que faz a fronteira entre o antes e o depois das más notícias. Todos os profissionais de saúde – se calhar as outras pessoas também – conhecem bem esse tempo infinito que acaba num instante. Gostávamos que durasse para sempre ou que não existisse. Nesse intervalo de tempo, revemos a vida toda, a nossa e a de quem nos vai ouvir, tentamos calçar os sapatos da outra pessoa mesmo sabendo que não nos servem, procuramos desesperados a palavra certa para atenuar a dor que já sabemos ser infinita, vencemos a secura da boca e o molhado dos olhos e tentamos vencer o aperto no estômago. Depois, ultrapassado o instante, o nanosegundo fronteiriço entre o antes e depois da tragédia, quando nos apercebemos do olhar que nos olha com a expressão concreta do “não estava preparado para isto”, fazemos muita força nas pernas e ainda mais nos olhos. Às vezes choramos outras conseguimos conter-nos. Sentimos sempre. Custa sempre.

9 comentários:

Teresa I. disse...

Tendo em conta que és pediatra, este post ganha uma nova dimensão... tragédia deve mesmo ser a palavra mais adequada quando se usa filho e doença (ou pior) na mesma frase...
Obrigada por te comoveres. Porque são crianças e porque são pais, em grande sofrimento e porque da última coisa de que necessitam é de um cubo de gelo à frente.

Fuschia disse...

O mensageiro tem sempre um papel ingrato...Ainda para mais com crianças.

coracaohabitado disse...

O custar sempre é preferível à apatia de já não custar nunca. Aos melhores médicos custará sempre.

*
menina do portão

MJL disse...

Sou mãe de dois, a ideia de perder algum deles é o meu pior pesadelo... já termi por dentro ao ler o post. É sempre bom saber que os médicos tb são humanos (não que duvidasse, mas alguns são tão "duros"... provavelmente têm de o ser, não sei)

Minha Menina disse...

Força))))...)))


bjo

lucia disse...

No ano passado, passei pelo nascimento de um filho com uma hérnia diafragmática detectada na gravidez, que deve saber bem o que significa. Infelizmente e apesar das expectativas para o meu pequeno príncipe serem de 60% de sobrevivência, parece que calhou nos outros 40%. Ele foi operado e lutou durante 1 semana e foi uma semana indescritível... Nunca me vou esquecer, e recordo-os com o MAIOR carinho, os profissionais de saúde da ucin da Estefânea, aqueles que foram HUMANOS, PESSOAS e não só médicos. E acredite, palavra de quem esteve do outro lado, é preciso muito pouco para fazer a diferença. Pode bastar só olharem-nos nos olhos.

Psiquiatra da Net disse...

Duas ou três postas de pescada sobre o teu post:

O teu post retrata extraordinariamente bem a questão da identificação.
Quando damos uma má notícia, muitas vezes damos por nós a pensar: "E se fosse connosco/com a mãe/com o pai/com os avós/com os filhos"?
Sofremos, não só porque somos humanos, mas também porque nos identificamos.

A comunicação de más notícias deveria ser alvo de formação específica durante o curso de medicina e reciclagem durante a especialidade, sobretudo em especialidades mais médicas e mais cirúrgicas, quanto à forma como se o faz, quer quanto ao impacto que isso tem na própria pessoa...

Por outro lado, devíamos, enquanto profissionais de saúde, ter um acompanhamento de rectaguarda, em relação ao burnout que possa daí advir...

Angie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angie disse...

De certeza que me vai custar sempre... :(