quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Querido pai natal*

Se me quiseres fazer contente, se me quiseres compensar por tudo o que trabalho, se achares - e bem - que mereço este tipo de mimos, podes ir a uma furla qualquer ou à loja do Mark Jacobs e trazer de lá uma destas:

À esquerda no ecrã a carmen da Furla e à direita a tobo slouchy hobo marc by marc jacobs.
* antes que vos passe pela ideia tonta virem para aqui dizer que o Pai Natal não existe, respirem fundo, eu já sei.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Dias muito bons.

Não me posso sentar nos próximos dez dias. Deixei metade do rabo no dentista (ao preço do metro quadrado da nádega trintona sem celulite deve ter sido isso) e acabei de entregar um quarto do que sobrava ao condominio do prédio. Conclusão óbvia: não volto a passar dois anos sem ir ao dentista e três a fugir das reuniões de condóminos*.
Ofereço alvíssaras (boas, do género de consultas internéticas grátis) a quem me quiser representar nestes eventos.

Amanhã



No Foyer do teatro aberto pelas 19 horas. Haverá leitura de textos pelo Albano Jerónimo e pela Joana Seixas. Vençam a inercia e o medo de ajuntamentos. Conviver é uma coisa boa. E este rapaz escreve bem que só ele.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Serviço publico

Hoje recebi 120 mensagens com a mesma pergunta: "Então Dra., o que faço em relação à vacina da Gripe A?" Ora bem, eu até sou uma rapariga opiniosa e cheia de vontade de expressar o que me vai na alma. Venham cá com perguntas sobre a necessidade de ferver a água, ou de prender as crianças no desconfortável ovinho ou se devem, ou não, oferecer um andarilho ao vosso sobrinho de estimação(esta não aconselho muito). Ver-me-ão perorar, segura e convicta, sobre os assuntos e se me contradisserem apresento vinte e cinco mil estudos para vos deixar caladinhos.

Sendo desbocada também sou muito séria. Principalmente no que toca ao exercício da minha profissão. Desta vez não posso ser emotiva, nem falar de convicções. Por isso apresento os factos que existem. A doença parece moderada (pelo menos até ao momento e é pouco provável que mude já que a epidemia se está a resolver no hemisfério sul e o vírus não mudou de comportamento), com menor número de internamentos, doentes ventilados e óbitos do que a gripe sazonal. A vacina parece ser segura, claro que é uma vacina recente e que ainda faltam estudos mas, até agora, só se observaram as complicações descritas para qualquer vacina . Na maioria dos casos uma reacção local e, numa pequena minoria, reacções de hipersensibilidade mais severas. Posto isto, e havendo uma recomendação da DGS para a vacinação de crianças dos 6 aos 24 meses, a decisão será dos pais dessas crianças. Não sendo moralmente recomendadas posições pessoais - reparem que a posição de um médico assistente tem necessariamente poder vinculativo sobre o seu doente - a favor ou contra qualquer uma das opções, abstenho-me de tomar decisões que, neste caso, cabem exclusivamente a quem de direito.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Felicidade felicidade

Vou ter um fim-de-semana normal. Yupiiiiiiiiiii. Saio sexta do Hospital e só volto a trabalhar na segunda-feira. Isto já não acontecia há 6 semanas. Vou ter uma vida como as pessoas normais: jantar fora, ver amigos, acordar todos os dias na minha cama, estar muito tempo com o meu homem, vou visitar o Vasco, enfim, uma excitação. Chego a ter palpitações.
Se me virem na rua andarei seguramente a cantarolar e, arrisco, darei alguns pulinhos frenéticos sempre que me lembrar que não trabalho.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Ora então cá vai

Hoje uma amiga minha, muito dada à procura de profissionais de saúde - cada um com sua paranóia específica que é para haver diversidade -, perguntou-me: "então como é que se faz um médico?" "nunca entendi muito bem essa coisa do internato." A Muxy, que é amiga, explica. Primeiro, é preciso entrar na faculdade, o que nem sempre é fácil. Depois, é preciso fazer o curso, o que é ainda mais difícil. Como dizia o meu professor de anatomia do 1º ano "vocês estão convencidos de que são muito espertinhos porque entraram em Medicina, ora bem, aqui, são uma porcariazinha igual às porcariazinhas sentadas ao vosso lado". A parte da porcaria é mentira mas o resto nem por isso. São seis anos de sofrimento, há lugar ao regabofe, é verdade, mas é, ainda assim, duro. Nesses seis anos, os três primeiros são dedicados à ciência básica, anatomia e quejandos, e os três últimos à clínica. No quarto e quinto os alunos podem cheirar os doentes de longe e polir os corredores sempre sem brilho do hospital e no último, que é profissionalizante, brincam aos médicos mais ou menos a valer. Durante este último ano têm de fazer uma tese de mestrado (é mestrado integrado não tem a mesma dificuldade) e preparar o exame do Harrison's.
O exame do Harrison's é, possivelmente, nosso pior pesadelo. 700 páginas A3, letra corpo 8, espaçamento mínimo, sem figuras, para saber de cor. É mesmo à letra que decoramos tudo. Depois são 100 perguntas de escolha múltipla. O resultado coloca-nos numa posição entre mil candidatos (a nota de curso serve para desempatar). Essa posição permite-nos escolher a especialidade e o sítio onde a queremos fazer. Se o exame corre mal não conseguimos a especialidade e é um ano de vida desperdiçado.
Segue-se o ano comum (no meu tempo eram dois anos) em que os jovens já são médicos mas ainda não tem liberdade para o exercício autónomo. Não podem passar receitas ou atestados nem ver doentes sem supervisão e, em rigor, são obrigados a fazer tudo o que os crescidos não querem: hitórias clínicas, electrocardiogramas, notas de entrada, limpar as casas dos assistentes e as casas de banho do hospital (esta parte é mentira boa?!).
Se tiverem tido boa nota no exame do Harrison's entram na especialidade que queriam e se tiverem tido muito boa nota até escolhem o hospital. Depois são 4, 5 ou 6 anos, consoante a especialidade, de trabalho numa área específica. Durante este tempo, o interno - este tempo chama-se internato complementar - deve, além de aprender a ver, diagnosticar e tratar doentes, produzir ciência. O que fazemos, na maioria dos casos, são trabalhos que não interessam a ninguém mas permitem encher o currículo que é um factor importante. Há exames anuais e prestação de provas práticas. No fim dos cinco anos somos obrigados a descrever o que fizemos e a enfrentar um júri nacional de cinco elementos para provar que somos capazes de ser especialistas. Os exames duram dois a três dias e variam de especialidade para especialidade. Esta parte é o equivalente aos residents da Anatomia de Grey, sem as enjoadinhas tipo Meredith e sem os Mc Steamys e Mc Dreamys, há alguma pouca vergonha, dizem, que eu nunca vi nadinha, mas muito menos festa.
Já especialistas vamos crescendo como podemos. Alguns rápido demais e com muitas dores.
Aproveito para desejar muito boa sorte a todos os meus colegas que vão fazer o famigerado exame no dia 19 de Novembro.

Para rematar em beleza

domingo, dia oficial da celebração do aniversário do meu Francisco - Sobrinho, festa agradável, onde, entre outras manifestações de propriedade - é a minha casa, é o meu brinquedo, é o meu jogo and so on-, pude ouvir o pequeno comandante dizer "é a minha tia". Ora bem, eu sei que não é uma manifestação de afecto, mas antes, um esboço de tirania condenável por todos os manuais de maternage e quejandos, no entanto, soube-me muito bem. Sou uma moça assim, de afectos intensos.
Ainda no domingo nasceu o Vasco. O Vasco não é da minha família mas gosto dos pais do Vasco, principalmente da mãe do Vasco - desculpa lá Xalo mas agora somos irmãs do peito - como se fosse de sangue. Gosto deles porque são fixes, porque quiseram continuar meus amigos quando era dificil, porque são daqueles que partilham tristezas e alegrias, enfim, gosto deles porque gosto. Estava cheia de vontade de ver a cara do crianço que, para alegria de todos, é lindo de morrer. Reparem que vejo pelo menos 20 recém-nascidos por dia, portanto, tenho uma opinião douta. O Vasco é lindo, gostamos muito de ti miúdo.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Efemérides

Fez ontem três anos que, quando passavam 53 minutos da uma da manhã, o meu sobrinho cumprimentou o mundo pela primeira vez. Demorei quase doze horas a despir a pediatra para assumir o papel de tia. Ainda hoje, me disfarço pontualmente de médica, para lhe fazer as consultas. Ele, esperto que só visto, leva a coisa na boa e acha que a tia "trabalha com brinquedos". Vejo-o muito menos vezes do que ele merece e todos os anos prometo que me vou esforçar mais. Até agora foram três anos fraquinhos. É um miúdo fixe, simpático, bem educado - a minha irmã é uma grande mãe - e tranquilo, dá um gosto imenso estar ao pé dele. O meu sobrinho chama-se Francisco.

Faz logo dois anos que, a uma hora qualquer da noite, o meu marido me olhou a primeira vez. Quis o destino que escrevesse sobre o assunto e que alguém que me é próximo me mostrasse o escrito. Fomos somando acidentes e improbabilidades e percebendo que a vida nos dava "a oportunidade". A história de amor da vida, o tipo de felicidade que espero que toda gente possa experimentar. O meu marido chama-se Francisco.

Francisco é meu nome favorito por estas duas razões. Hoje celebro ter esta sorte. Para festejar em grande estou de banco mas........ a minha vida é mesmo assim.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Das excepções que confirmam as regras

Sabíamos que ia acontecer. Mais cedo ou mais tarde íamos ficar afogados na coisa. A coisa, e isto é a interpretação livre dos factos, é verde e pegajosa, desfaz-se em litros de ranho, dores no corpo, inchaço no nariz e febre. Não é uma coisa bonita, as doenças não o são por regra. Estávamos bem cientes que a coisa não matava mais do que matavam as outras coisas verdes e pegajosas que nos inundam o inverno. Afinal a epidemia estava a resolver no hemisfério sul e, era ciência feita, a coisa não tinha feito dano pior que outras coisas que conhecíamos. Mas desta vez ia ser diferente. Havia o medo. De forma que nos fomos preparando para a coisa, achando que, quando a coisa viesse toda enfeitada de medo, a receberíamos de mangas arregaçadas e dispostos a lutar. Agora a coisa veio. A primeira morte encheu as urgências, desesperou os pais, instalou o pânico e a falta de racionalidade e está prestes a tornar este inverno num inferno, sem que sequer a música do Roberto Carlos nos possa salvar. Em nós não é a gripe que faz baixas mas um cansaço insano. Estamos a ficar exangues na repetição infinita das mesmas palavras uma, e outra, e cento e setenta vezes, todos os dias. Explicar que esta gripe é uma gripe, que não interessa a letra do abecedário, que se trata como o resto com chá, mimo e ben-u-ron.
Morreu um miúdo, é certo. Todos os anos morrem miúdos com doenças que noutros miúdos não fazem mossa. Continua a ser uma excepção, continua a confirmar a regra.
PS. Atenção, a criança que morreu no Hospital de Dona Estefania, era particularmente frágil. Tinha uma cardiopatia que podia ser agravada por QUALQUER doença virica.