Hoje uma amiga minha, muito dada à procura de profissionais de saúde - cada um com sua paranóia específica que é para haver diversidade -, perguntou-me: "então como é que se faz um médico?" "nunca entendi muito bem essa coisa do internato." A Muxy, que é amiga, explica. Primeiro, é preciso entrar na faculdade, o que nem sempre é fácil. Depois, é preciso fazer o curso, o que é ainda mais difícil. Como dizia o meu professor de anatomia do 1º ano "vocês estão convencidos de que são muito espertinhos porque entraram em Medicina, ora bem, aqui, são uma porcariazinha igual às porcariazinhas sentadas ao vosso lado". A parte da porcaria é mentira mas o resto nem por isso. São seis anos de sofrimento, há lugar ao regabofe, é verdade, mas é, ainda assim, duro. Nesses seis anos, os três primeiros são dedicados à ciência básica, anatomia e quejandos, e os três últimos à clínica. No quarto e quinto os alunos podem cheirar os doentes de longe e polir os corredores sempre sem brilho do hospital e no último, que é profissionalizante, brincam aos médicos mais ou menos a valer. Durante este último ano têm de fazer uma tese de mestrado (é mestrado integrado não tem a mesma dificuldade) e preparar o exame do Harrison's.
O exame do Harrison's é, possivelmente, nosso pior pesadelo. 700 páginas A3, letra corpo 8, espaçamento mínimo, sem figuras, para saber de cor. É mesmo à letra que decoramos tudo. Depois são 100 perguntas de escolha múltipla. O resultado coloca-nos numa posição entre mil candidatos (a nota de curso serve para desempatar). Essa posição permite-nos escolher a especialidade e o sítio onde a queremos fazer. Se o exame corre mal não conseguimos a especialidade e é um ano de vida desperdiçado.
Segue-se o ano comum (no meu tempo eram dois anos) em que os jovens já são médicos mas ainda não tem liberdade para o exercício autónomo. Não podem passar receitas ou atestados nem ver doentes sem supervisão e, em rigor, são obrigados a fazer tudo o que os crescidos não querem: hitórias clínicas, electrocardiogramas, notas de entrada, limpar as casas dos assistentes e as casas de banho do hospital (esta parte é mentira boa?!).
Se tiverem tido boa nota no exame do Harrison's entram na especialidade que queriam e se tiverem tido muito boa nota até escolhem o hospital. Depois são 4, 5 ou 6 anos, consoante a especialidade, de trabalho numa área específica. Durante este tempo, o interno - este tempo chama-se internato complementar - deve, além de aprender a ver, diagnosticar e tratar doentes, produzir ciência. O que fazemos, na maioria dos casos, são trabalhos que não interessam a ninguém mas permitem encher o currículo que é um factor importante. Há exames anuais e prestação de provas práticas. No fim dos cinco anos somos obrigados a descrever o que fizemos e a enfrentar um júri nacional de cinco elementos para provar que somos capazes de ser especialistas. Os exames duram dois a três dias e variam de especialidade para especialidade. Esta parte é o equivalente aos residents da Anatomia de Grey, sem as enjoadinhas tipo Meredith e sem os Mc Steamys e Mc Dreamys, há alguma pouca vergonha, dizem, que eu nunca vi nadinha, mas muito menos festa.
Já especialistas vamos crescendo como podemos. Alguns rápido demais e com muitas dores.
Aproveito para desejar muito boa sorte a todos os meus colegas que vão fazer o famigerado exame no dia 19 de Novembro.