quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Ora então cá vai

Hoje uma amiga minha, muito dada à procura de profissionais de saúde - cada um com sua paranóia específica que é para haver diversidade -, perguntou-me: "então como é que se faz um médico?" "nunca entendi muito bem essa coisa do internato." A Muxy, que é amiga, explica. Primeiro, é preciso entrar na faculdade, o que nem sempre é fácil. Depois, é preciso fazer o curso, o que é ainda mais difícil. Como dizia o meu professor de anatomia do 1º ano "vocês estão convencidos de que são muito espertinhos porque entraram em Medicina, ora bem, aqui, são uma porcariazinha igual às porcariazinhas sentadas ao vosso lado". A parte da porcaria é mentira mas o resto nem por isso. São seis anos de sofrimento, há lugar ao regabofe, é verdade, mas é, ainda assim, duro. Nesses seis anos, os três primeiros são dedicados à ciência básica, anatomia e quejandos, e os três últimos à clínica. No quarto e quinto os alunos podem cheirar os doentes de longe e polir os corredores sempre sem brilho do hospital e no último, que é profissionalizante, brincam aos médicos mais ou menos a valer. Durante este último ano têm de fazer uma tese de mestrado (é mestrado integrado não tem a mesma dificuldade) e preparar o exame do Harrison's.
O exame do Harrison's é, possivelmente, nosso pior pesadelo. 700 páginas A3, letra corpo 8, espaçamento mínimo, sem figuras, para saber de cor. É mesmo à letra que decoramos tudo. Depois são 100 perguntas de escolha múltipla. O resultado coloca-nos numa posição entre mil candidatos (a nota de curso serve para desempatar). Essa posição permite-nos escolher a especialidade e o sítio onde a queremos fazer. Se o exame corre mal não conseguimos a especialidade e é um ano de vida desperdiçado.
Segue-se o ano comum (no meu tempo eram dois anos) em que os jovens já são médicos mas ainda não tem liberdade para o exercício autónomo. Não podem passar receitas ou atestados nem ver doentes sem supervisão e, em rigor, são obrigados a fazer tudo o que os crescidos não querem: hitórias clínicas, electrocardiogramas, notas de entrada, limpar as casas dos assistentes e as casas de banho do hospital (esta parte é mentira boa?!).
Se tiverem tido boa nota no exame do Harrison's entram na especialidade que queriam e se tiverem tido muito boa nota até escolhem o hospital. Depois são 4, 5 ou 6 anos, consoante a especialidade, de trabalho numa área específica. Durante este tempo, o interno - este tempo chama-se internato complementar - deve, além de aprender a ver, diagnosticar e tratar doentes, produzir ciência. O que fazemos, na maioria dos casos, são trabalhos que não interessam a ninguém mas permitem encher o currículo que é um factor importante. Há exames anuais e prestação de provas práticas. No fim dos cinco anos somos obrigados a descrever o que fizemos e a enfrentar um júri nacional de cinco elementos para provar que somos capazes de ser especialistas. Os exames duram dois a três dias e variam de especialidade para especialidade. Esta parte é o equivalente aos residents da Anatomia de Grey, sem as enjoadinhas tipo Meredith e sem os Mc Steamys e Mc Dreamys, há alguma pouca vergonha, dizem, que eu nunca vi nadinha, mas muito menos festa.
Já especialistas vamos crescendo como podemos. Alguns rápido demais e com muitas dores.
Aproveito para desejar muito boa sorte a todos os meus colegas que vão fazer o famigerado exame no dia 19 de Novembro.

13 comentários:

Alex disse...

Que descrição tão realística! Acabadinha de passar por parte dela não podia concordar mais. Já sou leitora há algum tempo mas só agora resolvi comentar. Não podia deixar de agradecer a Boa Sorte na última linha :). Continuação de boa escrita, eu vou continuar a ler ;)!

Kella disse...

Delicioso!

Me disse...

Que descrição maravilhosa!

Feiticeira disse...

Sei bem do que falas, não vi a minha irmã (com olhos de ver e conversar por coisa nenhuma) durante um ano com ela a estudar para o Harrison (começou em Setembro e o exame foi em Novembro do ano seguinte). Quando as pessoas dizem que medicina não é nada de mais e é só estudar, deviam ter que estudar um capítulo do Harrison. A nota compensou (ficou nos 20 primeiros, iupiii) e pelo meio ainda fez férias no Natal e foi à viagem de finalistas, mais era abusar da sorte. É duro.

Cibele Chaves disse...

É por estas e por outras que admiro muito quem escolhe a Medicina.Eu não seria capaz!
A minha cunhada está a estudar Medicina e não são raras as vezes que falta a momentos de família porque tem de estudar.

Ana Rute Oliveira Cavaco disse...

:)

Natty disse...

ADORO ser bem tratada em todas as áreas mas na medicina, muito mais. Admiro quem escolheu a Medicina como profissão, e acho que os escolhidos tem um DOM.
BOOOOOOOOA SOOOOOOORTE.
Bjs
Natty

Sorry...Sorry

Porque ... disse...

Tenho um amigo a passar agora, pela segunda vez, o estrondoso teste do Sr. H;) Carlos onde é que tu andas pá??? Desde Junho!!!! Temos saudades:)

pedestais e coisas mais disse...

Sou aluna do primeiro ano de Medicina no Hospital de S.João, há muito que leio o teu blog mas só hoje me atrevi a comentar. Admiro a forma como encaras o teu trabalho e a dedicação que lhe tens. Arrisco dizer que és um exemplo da paixão que se deve ter à profissão de ser médico/a. Por tua causa passei a olhar para a especialidade de pediatria de outra forma, e comecei a integrá-la no rol das que mais me interessam para o futuro (apesar de ser cedíssimo para decidir). Relativamente ao estudo do meu/nosso curso... só tenho a dizer que poder ver um filme (nem que seja daqueles ranhosos de domingo, na tvi) sem pesos na consciência é um privilégio. Aqui usamos o Gray para a anatomia (miniciosamente estudado claro está, não há cá Netter's nem Yokochi's que não deixam, infelizmente) e julgo que já ganhei os meus primeiros cabelos brancos ao ouvir a regente da cadeira a dizer na primeira aula: "não se queixem que não têm tempo para estudar. o que é que vocês fazem entre a meia noite e as 7h da manhã? dormem. logo, deixem de dormir e estudem. dormem quando forem velhos". Esperam-me 6 anos muuito longos em estudo e curtos em divertimento. Mas penso que vai compensar. Afinal de contas temos algo que nos move; a nós e a 99% daqueles que lutaram para entrar em medicina e "acabarem médicos": a vontade de ir sempre mais além. isso ninguém nos tira, nem no internato (i guess!).
as maiores felicidades,
Catarina

Sasha disse...

Nunca tinha lido uma descrição tão detalhada... Tinha uma ideia pelas queixas que ouço de amigos que foram para medicina mas nunca me tinha debruçado sobre o assunto. Eu não era capaz e, por isso mesmo, admiro cada pessoa que se atreve a tal odisseia. Mas mais ainda admiro quem consegue para além de ser inteligente como tudo, ser uma pessoa de carne e osso que consegue ser bom médico e bom ser humano. Por isso acho que para além de todos esses anos a estudar que nem maluquinhos, há médicos que deviam fazer exame também de "tacto para lidar com doentes."
Gostei muito do texto.

Mafalda disse...

Tendo em casa o marido enclausurado a estudar para o exame de fim de especialidade depois de, ora bem... daqui a pouco 14 anos de estudo! só posso é ter admiração a quem sobrevive :)

Pink Panther disse...

Só tenho uma palavra para ti... XIÇAS!!!!!!!!

Não é para quem quer nem para quem pode... é para quem gosta... e MUITO!!!

Parabéns pela coragem e obrigado pela descrição... confesso que não fazia ideia nenhuma de como se processava e pensava que era bem menos tempo...

Beijos

PINK

T. disse...

Faltam 3 diazinhos e meio. É estranho mas começo a sentir algum alívio. São só mais umas 80 horas de ansiedade antecipatória, depois 2 e meia de sofrimento, e tudo acabará em bem porque haverá certamente vida depois do Harry, seja como for.
Um beijinho de quem vive o drama na 1ª pessoa ;)