De hoje não passa, ela vai perceber, chego lá e digo-lhe “doutora, por favor, devolva-me o meu menino, suplico-lhe. É que foi muito investimento sabe? Durante nove meses não fiz mais nada que não fosse senti-lo a crescer. Deixei de trabalhar para viver a gravidez. Aguentei as enxaquecas sem um ben-u-ron, andei pela praia, comi as coisas mais saudáveis. Nem um copo de vinho, nem uma viagem, nem um mau pensamento que pudessem comprometer o que me acontecia. Ele só pode ser muito forte. Foi tão amado. Não é que não confie na equipa, chego mesmo a gostar dos médicos apesar do mal que lhe fazem, mas não vo-lo posso dar assim. De mão beijada, como se não tivesse sido meu nos últimos tempos. Entregá-lo à unidade, ao ventilador, aos vinte tubos que entram e saem dele e, dizem vocês, o agarram à vida, e, digo eu, que o magoam muito. Acho mesmo que é demais. Preciso de ser eu a tomar conta dele, entende, de o mimar, beijar, alimentar, educar, ralhar, o que quiser fazer. O bebé é meu e não vosso. Passaram já 21 dias desde que deixei de viver, ando num caminho infinito, às voltas dentro do labirinto que não tem saída. Pergunto-vos mil vezes as mesmas coisas e a resposta é única monocórdica e insuficiente: o prognóstico é mau mas ele tem estado estável. Não chega, preciso de mais, quero-o na minha casa a mamar nestas mamas que esvazio de forma mecânica de três em três horas. O menino é o meu menino, devolvam-mo, por favor.”
Bom-dia minha querida, como está?
Eu, eu sobrevivo doutora e o bebé, como passou a noite?
O prognóstico continua reservado mas a criança esteve estável.
Obrigado doutora.
Mais alguma coisa mãe?
Bom-dia minha querida, como está?
Eu, eu sobrevivo doutora e o bebé, como passou a noite?
O prognóstico continua reservado mas a criança esteve estável.
Obrigado doutora.
Mais alguma coisa mãe?
Não doutora, mais nada, até amanhã!
12 comentários:
texto poderoso, magnífico. apical.
às vezes é dificil. Mas às vezes uma mão no ombro, um abraço e a permissão para participar em alguns dos cuidados ao bebé ajudam. (é perguntar às nurses que elas percebem disso). às vezes é tão dificil ir mais longe do que o está estável. e o desespero humano, personificado na impotência de uma mãe é sempre algo que nos assusta.
(ou será que estou completamente ao lado do que foi escrito?)
cumps doc :)
numa outra linha de pensamento.. amei os sapatos do post anterior. maravilhosos.
é tão complicado minha querida que não te poderia explicar sem violar algumas coisas que são segredo profissional como sabes!
As minhas nurses são as melhores do mundo e farto-me de aprender com elas mas neste caso não aplica.
É de certeza horrível para uma mãe ou um pai, passar por uma experiência dessas. Eu já a passei mas, como filha.
E não deve ser nada fácil também, para quem está do outro lado, detrás de uma bata branca, q dar o seu melhor.
Que, infelizmente, muitas vezes não é o suficiente.
:)
Bjs!
Nem consigo conceber uma coisa dessas, carregá-lo na barriga, parir e ficar 21 dias com o vazio ao colo, sem nada fazer.
Para vocês médicos também não será fácil de certeza, nem a constatação da situação clínica nem lidar com essa tristeza e ansiedade sem nada poderem adiantar.
:(
Só lhes posso desejar boa sorte do fundo do meu coração de enfermeira e de mulher (que eventualmente quererá ser mãe de mais qualquer coisa para além da sua gata malhada).
Nada do que aqui se conta diz respeito a uma história específica mas antes ao conjunto das que vivo diariamente.
Por muitas realidades que conheça nunca hei-de saber ao certo o que passam estes pais. Imagino apenas ao longe o que diz a dor que deixam passar nos olhos, nos gestos e nas palavras.
OS médicos, enfermeiros e restantes tecnicos por mais humanos que sejam não podem sequer ter a pretensão de saber o que isto é de forma precisa.
ouch
Achei lindo este texto, de uma sensibilidade infinita, também eu lido com o sofrimento interno dos outros todos os dias e por muito que me ponha na pele deles, muitas coisas me escapam entre os dedos. Às vezes chego a casa cansada mas feliz porque consegui aliviar alguém, outros dias chego cansada e com a sensação de que não consegui fazer nada. Às vezes tenho surpresas boas...
É a "Roda da Vida" como diz Chico Buarque numa canção maravilhosa...
este foi o único texto que aqui escrevi com as visceras na mão!
Muito obrigado pelo conforto que me dão!
Descobri o seu blog há pouco tempo. Pelo que vejo é médica pediatra, eventualmente numa unidade de cuidados intensivos neonatais. Este texto disse-me muito, porque há 3 meses tive um bébe que nasceu com uma hénia diafragmática e esteve 8 dias na UCIN do Hospital Dona Estefênea, e não sobreviveu. Naqueles longos 8 dias eu poderia ter escrito palavra por palavra este texto.
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